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O que aconteceu com a Casas Bahia - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

A Casas Bahia publicou na madrugada de domingo, 16 de agosto, o balanço do segundo trimestre de 2026 — depois de mudar duas vezes a data da divulgação. O documento mostrou prejuízo líquido de R$ 10 bilhões no trimestre. Nos dias anteriores à publicação, a rede fechou 298 lojas e demitiu perto de 2 mil pessoas, e no próprio domingo informou que estuda pedir recuperação judicial. Quem não acompanhou a semana encontra agora uma sequência de fatos que não se explicam separados: o número, o atraso, o corte e a reação de quem foi demitido.

Um prejuízo de R$ 10 bilhões e o que compõe ele

O prejuízo líquido de R$ 10 bilhões se compara a R$ 555 milhões negativos um ano antes. A maior parte da diferença não é caixa que saiu: segundo a companhia, R$ 9,1 bilhões do resultado vêm de efeitos contábeis não recorrentes — lançamentos que aparecem uma vez e não se repetem nos trimestres seguintes. Descontados esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões, uma variação de 76,2% em relação aos R$ 555 milhões negativos do mesmo período do ano anterior.

As linhas de operação foram em direções diferentes. A receita bruta subiu 1,6%, para R$ 8,3 bilhões, e o lucro bruto avançou 10,9%, para R$ 2,2 bilhões. As despesas, porém, saíram de R$ 49 milhões negativos para R$ 3,5 bilhões — alta de 7.120%, segundo o balanço, o que ajuda a explicar o resultado final. O Ebitda ajustado, medida de geração de caixa que exclui juros, impostos, depreciação e amortização, recuou 9,4%, para R$ 518 milhões. O Ebit, que mede o resultado da operação antes de juros e impostos, passou de R$ 283 milhões positivos para R$ 3,2 bilhões negativos.

No comunicado de resultados, a empresa diz estar na segunda fase de seu Plano de Transformação, voltada a redimensionar a companhia e priorizar canais e categorias de maior rentabilidade. "O plano previa uma fase de aceleração; o macro veio pior e retirou, por ora, suas condições. Voltamos à postura caixa-primeiro, redimensionando com prioridade em geração de caixa e rentabilidade", afirmou.

Entre os fatores que levaram ao quadro, a companhia listou juros ainda elevados, consumo das famílias pressionado e "disputa crescente pelo orçamento doméstico, inclusive das apostas on-line (bets)". Diante disso, informou ter reduzido o volume de compras de estoque — o que, segundo o próprio comunicado, exigiu mudanças na operação.

Por que o balanço atrasou duas vezes

O calendário original previa a divulgação para quinta-feira, 13 de agosto. Foi remarcada para sexta, 14, após o fechamento do mercado. Na sexta-feira também não saiu. No sábado, 15, o Valor Econômico registrou que a varejista não havia publicado o balanço na página da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, órgão que regula o mercado de capitais brasileiro, e lembrou que empresas que deixam de prestar informações periódicas ficam sujeitas a multa ordinária por atraso, prevista na resolução CVM 47/21. O documento apareceu na madrugada de domingo.

Segundo o Valor, a companhia alterou a data de publicação para fechar de forma mais organizada um plano que envolvia demissões e o fechamento de mais lojas. O jornal apurou que a empresa havia planejado para o mês cortes de até 30% da base de funcionários, e que fornecedores já estavam a par do movimento — preocupados, sobretudo, com o efeito de uma estrutura menor sobre a escala da operação. O mesmo jornal informou que a rede se reuniu com bancos e advogados no período.

Quase um terço das lojas fechadas de uma vez

O número de lojas fechadas é 298. Com base nos dados de março, a rede tinha pouco mais de mil unidades no Brasil, o que faz do fechamento 28,7% dos pontos do país. Segundo duas fontes ouvidas pelo Valor, foram 600 demissões na quinta-feira, 13, e entre 1,3 mil e 1,4 mil previstas para sexta, 14 — somadas, algo entre 1,9 mil e 2 mil postos, ou cerca de 6,7% da força de trabalho da companhia. Uma terceira pessoa citada pelo jornal estimou que o total de funcionários na estrutura a ser desligada pode chegar a 3 mil.

Antes disso, os sinais já apareciam nos balanços. No primeiro trimestre de 2026, a Casas Bahia teve prejuízo de R$ 1,064 bilhão, contra perda de R$ 408 milhões no mesmo intervalo do ano anterior; em 2025, o prejuízo consolidado acumulado ficou perto de R$ 3 bilhões. Um dos pontos de pressão está nas despesas financeiras: no primeiro trimestre, o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,171 bilhão. A companhia passou por uma recuperação extrajudicial em 2024, resolvida em acordo com os bancos, mas seguiu convivendo com o peso dessas despesas. Na apresentação do primeiro trimestre, o presidente-executivo Renato Franklin dizia que a estratégia para o ano era "ser mais conservador na concessão de crédito, na tomada de risco, nas compras com fornecedores". As ações fecharam o dia seguinte àquele balanço em queda de 9,31%, a R$ 1,85.

Para o segundo trimestre, a XP Investimentos já esperava números fracos, com crescimento pressionado em todos os canais e desempenho fraco nas lojas físicas, refletindo demanda mais baixa, menor penetração de serviços e crédito e um cenário macroeconômico difícil.

O que dizem os sindicatos

O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região, o Secor, divulgou nota na sexta-feira, 14, afirmando que o fechamento de unidades da rede na região ocorreu de forma repentina e que funcionários relataram ter sido pegos de surpresa com a interrupção das operações em algumas lojas. Segundo a entidade, os trabalhadores aguardavam informações sobre desligamento, verbas rescisórias, liberação do FGTS e seguro-desemprego. "Os comerciários não podem arcar com prejuízos decorrentes de decisões empresariais tomadas sem o devido diálogo e transparência", disse o presidente do Secor, Luciano Pereira Leite. O sindicato orientou os associados a não assinar documentos sem acompanhamento jurídico e, segundo a Folha de S.Paulo, prepara ação coletiva pedindo reintegração dos funcionários e indenização por danos morais, pela forma como as demissões foram conduzidas.

O Sindicato dos Comerciários de São Paulo também afirmou, em nota, ter sido surpreendido pelo anúncio do fechamento das 298 lojas e pela demissão de cerca de 1,9 mil trabalhadores. A entidade convocou representantes da empresa para uma reunião, para exigir esclarecimentos sobre os critérios do fechamento, a quantidade de trabalhadores atingidos e as medidas de garantia de direitos, e disse que dará assistência jurídica a demitidos da Grande São Paulo.

O que fazer com essa informação

Há três frentes com data e desfecho previsíveis, e acompanhar as três dá uma leitura melhor do caso do que qualquer número isolado do balanço.

A primeira é jurídica e financeira. No comunicado de domingo, a empresa informou que entre as medidas em avaliação estão "medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial". Ou seja: um novo pedido é hipótese declarada pela própria companhia, não especulação de mercado. Quem é credor, fornecedor ou tem crédito trabalhista a receber deve observar se essa hipótese se transforma em pedido formal — é isso que define em que fila cada dívida entra.

A segunda é trabalhista. A ação coletiva anunciada pelo sindicato de Osasco pede reintegração e danos morais, e o sindicato de São Paulo cobrou explicações sobre critérios. O que se decidir aí vale para quem foi demitido nas duas rodadas de 13 e 14 de agosto, e a orientação prática já publicada pelas entidades é procurar o sindicato antes de assinar qualquer documento de rescisão.

A terceira é a teleconferência de resultados, marcada para 17 de agosto, às 14h de Brasília, e formada apenas por perguntas e respostas. É o primeiro momento em que a empresa responde diretamente sobre o corte de 298 lojas, o tamanho das demissões e a postura de "caixa-primeiro" que descreveu no balanço — inclusive sobre quanto do prejuízo é contábil e quanto pressiona o caixa.

Para quem só observa o varejo brasileiro, os fatores que a própria empresa listou — juros elevados, consumo pressionado, disputa pelo orçamento das famílias — são os mesmos que aparecem nas contas de outras redes. Acompanhar como eles se traduzem aqui em despesa financeira e em fechamento de loja serve de referência para ler os próximos balanços do setor.

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